textos do autor

Maria Aurora Bessa
“Comerás o pão com o suor do teu rosto… parirás com dor!”
Qualquer um de nós compreende facilmente que estas afirmações sempre tiveram de ser entendidas num contexto simbólico. O facto é que o “parir” é um acto tão fisiológico e natural para a mulher como respirar, comer, beber… Todo o ser vivo, nomeadamente do reino animal e do sexo feminino, para perpetuar a espécie, tem de parir, seja um ovo fecundado, seja um ser idêntico mais ou menos imaturo.
Até aqui, nada de novo; tem mesmo de ser assim, já que a fisiologia humana, na sua enorme sabedoria, está estruturada para o desfecho do nascimento. Em cada tribo, em cada civilização, em cada comunidade há um conjunto de rituais, cujo objectivo é sempre o mesmo – assegurar a continuação da espécie bem sucedida.
A ciência, na sua evolução contínua, tem procurado minorar os insucessos, quer durante a gestação quer durante o trabalho de parto com o culminar no nascimento. A tecnologia criada, desenvolvida e usada pelo Homem, os meios de diagnóstico, a farmacologia, a par de outras inovações das metodologias de parto, assentam não só na evolução das ciências médicas, mas de modo muito significativo, na satisfação das necessidades psicológicas e humanas da mulher parturiente.
O parto, tradicionalmente realizado em ambiente familiar, não se compadecia com as deficientes condições existentes em grande parte das situações. As taxas de mortalidade natal e materna eram elevadíssimas. Havia que alterar este facto e o parto passou a ser realizado, maioritariamente, em serviços hospitalares, mais ou menos convenientemente apetrechados, com recursos humanos devidamente formados e experientes e, sem dúvida, num ambiente mais controlável dos agentes microbianos.
E as taxas foram baixando, muito por via da evolução da literacia, das campanhas de informação levadas a cabo pelos serviços de saúde, da disseminação dos meios de comunicação e da maior abertura dos órgãos de decisão para o facto de Portugal, embora pequeno, ter zonas de grande isolamento e inacessibilidade, onde a informação não chega ou tarda a chegar.
Mas, como sempre, houve também um efeito perverso ou, se quisermos, menos positivo. O conceito de parto natural está desvirtuado, praticamente morto. Já é difícil encontrar uma grávida que não nos diga: “Quero uma cesariana, quero a epidural!”, na maioria dos casos sem bem saber o que isso é, em que consiste, que consequências tem ou pode vir a ter.
Parirás com dor… NÃO!
Vamos fazer nascer o bebé sem quase sentir… TAMBÉM NÃO!
São duas situações extremadas, mas há outras intermédias, mais fisiológicas, emocionalmente menos traumatizantes e que voltarão a aproximar o acto de parir de algo tão essencial, simples e natural como o respirar, comer, beber…
O QUE É NATURAL É BOM.
P.S.: Não foi abordado aqui nada que tenha a ver com economicismos…
Abril de 2009
